Saiu da festa. O copo, ainda ainda mão, meio cheio. O coração, descompassado, meio vazio. A mesma sensação de tantos finais de noite. Angústia por lembrar oque não falou e o que deveria ter calado. O telefone nas mãos, pedindo para ser usado. O bom-sendo pedindo para ser escutado. Passou pelo carro dele. Olhou. Parou. Encontrou uma folha em branco dobrada, que tinha ficado esquecida lá por algum motivo. Sentou-se na rua, ainda mais fria de orvalho, e aproveitou os primeiros raios de sol para escrever:
O que eu queria ter feito e não fiz, por falta de coragem, era falar pra você que eu não aguento mais. Que te ver com outra me deixou com calor, frio, suando e chorando ao mesmo tempo. Que tudo aquilo era por sua causa: toda a roupa, toda a maquiagem, toda a produção, todo o dinheiro que eu gastei naquela festa. Eu não estava bonita pra impressionar ninguém além de você. Me disseram que eu também deveria beijar outro na sua frente. Mas eu não consigo... Eu não quero ficar com ninguém mais, e a minha escolha já foi feita há meses! Inclusive já passou a fase boa, já amadureceu, já está na hora de cair, e eu, como sempre, fico nessa obsessão platônica, simplesmente porque acredito que poderia dar certo, porque os poucos momentos que ficamos juntos compensaram todo o resto. Você me desorienta. Eu não consigo disfarças os meus olhos brilhando quando falo com você, e eu acho que todo mundo percebe o meu coração saltando do peito quando você chega. Mas você ainda não me conhece direito. Não sabe o que me desperta nem quem eu sou. Por vezes, penso até que tem uma opinião distorcida de mim. E fico aqui, repassando mais uma vez o que eu deveria ter feito, o que eu deveria ter dito e o que não fiz nem disse... Acho que nem todo champanhe do mundo daria jeito nisso, nessa trava que surge em mim a cada vez que você se aproxima, me impedindo de te mostrar... de me mostrar. E o tempo vai passar. E, talvez, algum dia eu consiga. Ou, talvez, alguma hora eu esqueça...Ela levantou o limpador do para-brisa, colocou o papel e olhou para os lados. Ninguém á vista. Deu dois passos, parou e virou pra trás. Num ímpeto, arrancou a folha e a rasgou, em quinze pedaços. Foi embora, correndo, para não pensar que havia deixado a covardia vencer.
E perdeu a chance de ganhar o jogo, ao menos uma vez.
Crônica by:
Livro - Apaixonada por palavra
Autora - Paula Pimenta
Crônica by:
Livro - Apaixonada por palavra
Autora - Paula Pimenta





Tenho esse livro, adoro a Paula Pimenta! Ótima crônica :D
ResponderExcluirBeijos,
http://meusolhosdejabuticaba.blogspot.com